04 outubro 2009

'Sim' irlandês ressuscita Tratado de Lisboa

Documento foi aprovado por maioria inequívoca depois de ter sido rejeitado em 2008. A crise financeira e económica que o país vive pode ter ditado a mudança. O primeiro- -ministro, Brian Cowen, respirou de alívio. Líderes da oposição voltaram ao ataque depois de uma trégua em nome de Lisboa.

À segunda foi mesmo de vez. Num referendo onde o europragmatismo parece ter vencido o eurocepticismo, por causa da crise financeira que o país atravessa, os irlandeses ressuscitaram o tratado de Lisboa, com 67,1% dos votos no "Sim" e 32,9% no "Não" - o que significa uma mudança de 20,5% a favor do documento desde 2008.

Daorah Ryan, James Brown e Tommy Lalor foram três dos irlandeses que, em 16 meses, mudaram do "Não" para o "Sim". "Votei a favor desta vez porque acho que o tratado vai ajudar a criar empregos", disse ao DN Brown, que perdeu o trabalho num hotel em Dublim. "Vamos ter outras eleições para manifestar o nosso descontentamento em relação ao Governo", explicou Ryan, um ex-técnico de seguros que também está à procura de emprego. "Mudei porque acho que desta vez o Governo explicou melhor, com mais tempo, o que estava em causa", declarou ainda Lalor, dono de uma joalharia numa das principais ruas da capital.

"É um excelente dia para Irlanda e um excelente dia para a Europa", afirmou o primeiro-ministro, Brian Cowen, mesmo antes de os resultados oficiais serem divulgados no Castelo de Dublim. Cowen, do Fianna Fáil, tem razões para festejar. E não apenas porque o país escolheu a integração europeia, mas também porque sabe que estava em jogo a sua sobrevivência política. O Governo de coligação Fianna Fáil/Verdes é dos mais impopulares de sempre.

Isso mesmo fizeram questão de lembrar os líderes da oposição, pondo fim a uma trégua em nome de Lisboa. "É uma vitória para os que puseram o país à frente do descontentamento com a política", declarou Enda Kenny, líder do Fine Gael, no Castelo de Dublim. "Os irlandeses tomaram uma decisão sensata e agora o importante é correr rapidamente com este Governo" disse Eamon Gilmore, líder do Labour, à entrada do centro de contagem de Royal Dublin Society, RDS, no subúrbio de Ballsbridge.

Nesse gigantesco barracão, onde estavam a ser contados os votos de Dublim, desfilaram vários defensores do "Não". O líder do Libertas, Declan Ganley, garantiu que o que predominou neste referendo "não foi a vontade do povo irlandês mas sim o medo". Acompanhado pela mulher, Delia, o empresário prometeu uma conferência de imprensa, daqui a um ano, para avaliar quantos empregos foram criados por causa do tratado. "A campanha do "Sim" foi desonesta porque ligou o documento ao crescimento económico". Apesar de tudo, Ganley elogiou a campanha de Cowen, que classificou de vencedor. Algo que levou os jornalistas a perguntar, meio a sério, meio a brincar, se pretende concorrer às próximas legislativas nas listas do Fianna Fáil.

O Sinn Féin, através da vice-presidente, Mary Lou MacDonald, apontou o dedo ao Fine Gael e ao Labour por terem feito campanha ao lado do Governo pelo "Sim". "O que fizeram foi dar um mandato de mais três anos ao Governo". Isto porque as eleições só estão previstas em 2012, mas devido a desentendimentos na actual coligação, o escrutínio poderia, eventualmente, vir a ser antecipado.

Brian Hickey, da organização pelo "Sim" Cóir, disse, ao DN ter ficado "surpreendido com o número de votos a favor". Também ele acha que o "foi o medo da crise que ganhou depois de o Governo ter feito disto um referendo sobre a Europa em vez de um referendo sobre o tratado". Joe Higgins, eurodeputado socialista, brincou com a situação, na RTE, admitindo apenas que com um "Não", em 2008, um "Sim", em 2009, há um empate de 1-1.

in DN

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