03 julho 2009

Kumba e Malan na segunda volta

Repete-se o cenário de 1999: Kumba Ialá contra Malan Bacai Sanhá; um balanta contra um beafada; PAIGC contra PRS; dois muçulmanos, um deles convertido

As eleições presidenciais na Guiné-Bissau terão segunda volta, entre Malan Bacai Sanhá, apoiado pelo partido no poder (PAIGC), e Kumba Ialá, do PRS. A data da votação não foi ainda definida pela Comissão Nacional de Eleições guineense (CNE), mas fala-se em 28 de Julho ou 2 de Agosto.

Os dois políticos vão reeditar o embate de Janeiro de 2000, que na altura foi ganho por Kumba, de forma surpreendente, com 72% dos votos. No entanto, a repetição deste resultado será altamente improvável em 2009, pois Malan Bacai já obteve 40% dos votos no primeiro turno das eleições, tendo ficado relativamente próximo de uma vitória, faltando-lhe apenas cerca de 41 mil votos.

O candidato do PAIGC teve mais de 133 mil votos, contra um pouco menos de 100 mil de Kumba (29,4%). Em terceiro lugar ficou o independente Henrique Rosa, com 81 mil votos (24%). Rosa, que apostava tudo na passagem à segunda volta, já anunciou ontem que não recomendará o voto em nenhum dos dois candidatos rivais, por "não se rever" no seu projecto político.

As eleições de domingo realizaram-se num cenário difícil, de caos político-militar e grandes incertezas em relação ao futuro do país. As eleições foram organizadas na sequência da morte do presidente Nino Vieira, que tinha sido eleito em 2005. Nino foi assassinado na madrugada de 3 de Março por militares, em aparente retaliação pelo atentado bombista, horas antes, que custara a vida ao chefe de Estado-maior, general Tagmé Na Waie. O duplo crime ocorreu num quadro de crescente influência do narcotráfico nas instituições guineenses.

A marcação de eleições não melhorou o cenário. A violência continuou, naquilo que pareceram ser ajustes de contas. Um dos candidatos presidenciais, Baciro Dabó, foi morto (oficialmente, tratou-se de um golpe de Estado) e a insegurança talvez explique a elevada abstenção das eleições (40%), valor demasiado alto neste país, que está habituado a taxas inferiores a metade desta.

Se fossem convencidos a votar, os abstencionistas podiam ser decisivos, mas o facto é que o número de votos baixa sempre da primeira volta para a segunda. Esta dispersão, obviamente, beneficia quem estiver mais próximo dos 50%, neste caso, Malan Bacai.

O DN não teve acesso aos votos por regiões, mas em 2005, quando foi derrotado na segunda volta por Nino Vieira, o actual candidato do PAIGC teve bons resultados nas regiões muçulmanas e menos bons em Bissau. Malan tem 62 anos e é Beafada, etnia ligada aos mandingas. Kumba, de 56 anos, é Balanta e muito forte nesta etnia, além de convertido ao Islão. Venceu as eleições de 1999, contra Malan Bacai (ver peça ao lado), mas o contexto era algo diferente.

in DN

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