10 novembro 2008

A MARINAR ATÉ SER O MAIS PODEROSO DO MUNDO

Uma eleição é, no fundo, como um golpe de Estado: trata-se de tirar os que lá estão e pôr novos. Uma mudança deve ser breve. Por isso, geralmente o Presidente eleito toma posse logo no mês seguinte à votação. Há que acalmar a sofreguidão do que chega, e pôr fim à agonia do que sai.

Nos Estados Unidos não é assim. Eleito na primeira semana de Novembro, o Presidente (que também é chefe do Governo) faz o discurso da tomada de posse (Inaugural Address), a 20 de Janeiro. É muito Outono e Inverno, já de si tempos longos, a esperar. E se o antecessor se apega ao poder? E se ao próximo lhe dá ganas de agarrar o barco?

Sexta-feira, Barack Obama passou mais um teste ao escrutínio que lhe vão fazendo ao declarar, na sua primeira conferência de imprensa: "Há só um Governo e esse é o do Presidente Bush", disse-o, apesar de estar rodeado daqueles que, com ele, já traçam o novo rumo da América.

Que esta espera insólita é feita de propósito confirma-se num pormenor: Obama ainda não foi eleito. Em 4 de Novembro, só lhe disseram que essa é uma possibilidade: olha, tiveste 364 votos eleitorais, uma maioria mais do que confortável (bastavam 270). "Votos eleitorais", não votos definitivos. As presidenciais americanas são uma eleição indirecta, o povo elege grandes eleitores e estes é que escolhem o Presidente. Só no dia 15 de Dezembro os grandes eleitores vão escolher.

Antes das presidenciais os dois partidos indicaram os seus grandes eleitores por estado. E só os do partido que ganhou no estado votam a 15 de Dezembro. Por exemplo, os 27 grandes eleitores da Florida são democratas e vão votar, em princípio, em Obama. Em princípio... Porque não está garantido: em 2004, um malandro de Minnesota, onde John Kerry ganhara, não votou nele, mas no parceiro de lista, John Edwards. Como o voto dos grandes eleitores é secreto, nunca se soube quem foi o brincalhão. Quem diz que não haverá 364 brincalhões no próximo 15 de Dezembro?

Portanto, tudo é feito mesmo para criar angústia, para forjar a têmpera do eleito. E antes era pior. As tomadas de posse, em vez de 20 de Janeiro eram, desde George Washington, a 4 de Março. Ficava-se quatro meses a marinar! Quem mudou isso foi Franklin Roosevelt, que tomou posse, pela primeira vez, a 4 de Março de 1933, e das outras (ele foi o único a ser eleito quatro vezes) na tal data de 20 de Janeiro, que ele inaugurou.

1933 foi, pois, o ano da mudança. E o que terá dado a Roosevelt para acabar com a grande espera de quatro meses? É que se estava em plena Grande Depressão e ele sentia que tinha coisas para fazer que o seu antecessor, Herbert Hoover, não era capaz. Provavelmente é o que sente Obama nestes tempos também difíceis. Provavelmente ele também vai encurtar os actuais dois meses e meio de espera. Para a próxima.

por Ferreira Fernandes in DN

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