17 outubro 2008

Às Sextas com Filipa Gaspar

GRIPE



O que é a gripe

A gripe resulta da infecção pelo vírus influenza. É uma doença muito contagiosa e pode ser transmitida de pessoa a pessoa. Como o vírus da gripe sofre constantemente alterações, existem diferentes estirpes, sendo umas mais contagiosas que outras e originando doenças com diferentes graus de gravidade.

Sinais e Sintomas

A gravidade da doença é variável e o quadro clínico das pessoas infectadas pode variar entre alguns sinais e sintomas ligeiros até à pneumonia e morte. Geralmente o quadro clínico tem início súbito. Os principais sinais e sintomas são referidos no quadro seguinte.

Gripe - Quadro Clínico

Febre

Tosse

Cefaleias (dores de cabeça)

Astenia (cansaço)

Fraqueza

Dores musculares

Dores articulares

Faringite (dores de garganta)

Obstrução nasal (nariz entupido)

Rinorreia (corrimento nasal)

Muitas vezes confunde-se a constipação vulgar com a gripe comum. Embora as duas situações tenham sinais e sintomas idênticos, as suas características clínicas são diferentes. No quadro seguinte apresentam-se as principais diferenças entre as duas entidades nosológicas.

Constipação e Gripe Comum – Diagnóstico Clínico

Sinais/Sintomas

Constipação

Gripe

Início

Insidioso/gradual

Súbito

Febre

Rara; temperatura sub-febril

Frequente; ligeira, moderada ou elevada

Arrepios/calafrios

Raros

Frequentes

Tosse

Pouco frequente; ligeira

Frequente; moderada ou intensa

Cefaleias

Raras

Moderadas ou intensas

Mialgias

Pouco frequentes; ligeiras

Frequentes; moderadas ou intensas

Astenia/fraqueza

Ligeira

Frequente; moderada ou intensa (até 3 semanas)

Os sinais e sintomas da gripe pandémica são semelhantes aos da gripe sazonal (gripe comum). Contudo, na gripe pandémica os sinais e sintomas são mais intensos, a doença é mais grave e a morte ocorre com maior frequência relativa.

Transmissão

Os vírus influenza são facilmente transmitidos de pessoa a pessoa, nomeadamente quando um indivíduo infectado com o vírus espirra, tosse ou fala (por expelir o vírus para o meio ambiente circunjacente). Uma pessoa também se pode infectar quando toca na própria face, depois de tocar numa superfície contaminada ou numa pessoa infectada.

Os vírus da gripe têm um curto período de incubação – tempo que decorre entre a infecção e o aparecimento dos primeiros sinais e sintomas – geralmente de 1-3 dias. Nos adultos, a capacidade de infectar outras pessoas vai de algumas horas antes do aparecimento dos primeiros sinais sintomas até 4-5 dias depois. Nas crianças a capacidade de infectar outras pessoas pode durar 7 dias.

Tipos de Vírus da Gripe

Os principais grupos de vírus da gripe são: influenza A, B e C. Os vírus do tipo A são os mais frequentes e os causadores das epidemias e pandemias. Enquanto que os vírus influenza B e C só infectam humanos, os vírus influenza A também podem infectar pássaros e outros animais, como porcos e cavalos. Esta capacidade única de ultrapassar a barreira das espécies, faz com que o vírus influenza A possa originar pandemias.

Tipos de Vírus Influenza

Vírus

Hospedeiro

Doença

Influenza A

Homem e animais (aves, mamíferos, etc.)

Potencialmente grave (pandemias e epidemias)

Influenza B

Homem (principal hospedeiro)

Habitualmente pouco grave (epidemias)

Influenza C

Homem (único hospedeiro)

Ligeira ou infecção assintomática

Adaptado de: Centers for Disease Control and Prevention. Influenza prevention and control: influenza, http://www.cdc.gov/ncidod/diseases/flu/fluinfo.htm


2. Causas das epidemias e pandemias de gripe

Os vírus influenza circulam continuamente no seio das populações humanas e sofrem alterações frequentes nas suas características, que lhes confere a capacidade de originarem epidemias anuais e, por vezes, pandemias. Os vírus do tipo A sofrem alterações frequentes nos seus antigénios de superfície. Estas alterações podem ser "minor" (drift antigénico) ou "major" (shift antigénico).

Gripe sazonal – Drift antigénico

As mutações genéticas pontuais – drift antigénico – ocorrem constantemente entre os vírus influenza A, resultando no aparecimento de variantes ou estirpes diferentes. Estas novas estirpes originam as epidemias anuais de gripe, que surgem sobretudo durante o Inverno. As vacinas contra a gripe (adaptações anuais) são fabricadas com base nestes drift antigénicos. Algumas destas epidemias anuais são mais extensas e graves que outras, e ocorrem quando as novas estirpes são muito diferentes das estirpes já existentes. Quanto maior for esta diferença menor será a imunidade da população.

Gripe pandémica – shift antigénico

Ocasionalmente podem ocorrer alterações "major" nos antigénios de superfície (proteínas) dos vírus influenza A. Estas alterações, que resultam da mistura aleatória do material genético dos vírus, são mais importantes que as alterações associadas ao drift antigénico, pois originam o aparecimento de vírus novos (subtipos diferentes) com grande potencial pandémico. Perante esta situação, a população terá pouca ou nenhuma imunidade, uma vez que não teve qualquer tipo de exposição prévia ao vírus (infecção ou vacinação). Esta ausência de imunidade facilita a rápida disseminação do vírus – muito superior à do vírus da gripe sazonal.

Como ocorre o shift antigénico

O shift antigénico pode ocorrer por dois processos: (1) por adaptação súbita durante a fase de replicação de um vírus habitual/normal, ou (2) por recombinação genética resultante da mistura aleatória do material genético de vírus de diferentes origens, ou de diferentes espécies animais – por exemplo, entre uma estirpe humana do vírus influenza A e uma estirpe animal. Esta recombinação originará um novo vírus, capaz de causar pandemias em humanos. As trocas genéticas ocorrem quando um animal é infectado simultaneamente com um vírus gripal humano e com um vírus gripal animal co-infecção. O animal onde ocorre esta troca genética é denominado habitualmente como "misturador". Geralmente o "misturador" é o porco doméstico, porque é sensível aos vírus da gripe humanos e aos vírus da gripe das aves. Contudo, actualmente alguns especialistas receiam que o homem também possa servir de "misturador".

Aparecimento de uma estirpe pandémica por co-infecção de vírus humanos e vírus não humanos

vírus humano da gripe

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"porco misturador"

â

vírus novo

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população

vírus da gripe das aves

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â

"homem misturador"

â

vírus novo

â

população

Adaptado de: NHS. Explaining pandemic flu: a guide from the chief medical officer, http://www.dh.gov.uk/PolicyAndGuidance/EmergencyPlanningPandemicFlu

O vírus A(H5N1) é um vírus altamente patogénico e tem causado muita preocupação, pela sua capacidade de infectar humanos e pelo facto da população poder servir de "misturador". O principal receio dos especialistas alicerça-se no facto das pessoas infectadas com o vírus da gripe das aves poderem infectar-se simultaneamente com o vírus da gripe sazonal (humano), possibilitando assim a troca de material genético entre os dois tipos de vírus, situação esta que pode originar o aparecimento de uma nova estirpe pandémica. A simples adaptação ao homem do vírus da gripe das aves, com capacidade de transmissão pessoa a pessoa, também pode facilitar o aparecimento de uma estirpe pandémica. No capítulo seguinte descreve-se com mais detalhe o possível papel da gripe das aves na eclosão de uma pandemia de gripe.


3. Diferenças entre gripe sazonal e gripe pandémica

As epidemias de gripe sazonal ocorrem anualmente em todo o mundo. Existem diferenças importantes entre as gripes sazonal (gripe comum) e pandémica que facilitam a compreensão das razões porque a gripe pandémica deve ser considerada uma ameaça séria.

Diferenças entre Epidemia e Pandemia

Epidemia

Pandemia

  • É a ocorrência em larga escala de uma doença numa comunidade, população ou região.

  • Tem uma duração limitada no tempo e a sua extensão geográfica é variável.

Exemplos:

- epidemia de papeira em Portugal, em 1998,

- epidemia de cólera em Angola em 2006.

  • É a ocorrência de uma doença em todo o mundo, atingindo vários milhares ou milhões de pessoas em diversos países e continentes.

  • Tem duração e extensão geográfica ilimitadas.

  • É uma "epidemia com extensão mundial".

Exemplo: pandemia de SIDA/VIH (ocorre há várias décadas em todos os países do mundo).

Nota: As palavras epidemia e pandemia são de origem grega – epi (sobre), pan (todos) + demos (população/pessoas).

Diferenças entre Gripe Sazonal e Gripe Pandémica

Gripe Sazonal (Epidémica)

Gripe Pandémica

  • Ocorre todos os anos, sobretudo durante os meses de Inverno.

  • Geralmente afecta 5-10% da população.

  • Pensa-se que, em todo o mundo, o número total de mortes por ano varia entre 500 mil e um milhão.

  • É geralmente uma doença pouco grave, que cura em 1-2 semanas sem tratamento médico.

  • As mortes por gripe sazonal ocorrem sobretudo em grupos de risco: idosos, crianças muito jovens, pessoas com doenças crónicas (pulmonares, renais, cardíacas cancro, diabetes) e imunodeprimidos (transplantes, SIDA, etc).

  • A vacina contra a gripe sazonal é eficaz porque é possível prever as estirpes virais circulantes durante o Inverno. Esta vacina, adaptada anualmente, deve ser administrada sobretudo aos grupos de risco.

  • Existem fármacos antivirais que podem ser prescritos nos casos mais graves de gripe sazonal e em casos especiais.

  • Ocorre esporadicamente, em qualquer estação do ano.

  • Pode atingir mais de 25 % da população.

  • A mortalidade é muito superior à da gripe sazonal – durante a pandemia de 1918 morreram 40-50 milhões de pessoas.

  • É uma doença muito mais grave que a gripe sazonal, com maior risco de morte.

  • A infecção pode atingir qualquer pessoa, em qualquer idade.

  • Na fase inicial de uma pandemia de gripe não existem vacinas eficazes, por se desconhecer a nova estirpe viral. Não é possível prever o novo tipo de vírus, e só existe uma certeza: a estirpe será diferente das que circularam no Inverno anterior.

  • A quantidade disponível de fármacos antiviricos pode ser limitada. A prescrição depende da sua eficácia, que só pode ser determinada após a eclosão da pandemia.

Principais Características da Gripe Pandémica

Quando se pretende determinar o eventual potencial pandémico de uma estirpe de vírus da gripe, existem alguns aspectos importantes a considerar, nomeadamente a sua capacidade para:

  • Infectar pessoas, além de outros mamíferos e aves;

  • Causar doença numa grande proporção de indivíduos infectados;

  • Transmitir-se pessoa a pessoa;

  • Difundir-se rápida e extensamente – por ser diferente das restantes estirpes em circulação e as pessoas terem pouca ou nenhuma imunidade.

Em todas as pandemias de gripe que ocorreram no passado, os vírus apresentaram aquelas características.


4. Impacte das pandemias de gripe

No século XX, em três períodos distintos, os vírus influenza A sofreram recombinações (shift antigénico) que originaram três pandemias com elevada morbilidade e mortalidade.

Pandemias de Gripe no Século XX

Pandemias ð

Gripe Espanhola

Gripe Asiática

Gripe de Hong Kong

Estirpe:

A(H1N1)

A(H2N2)

A(H3N2)

Período:

1918-1919

1957-1958

1968-1969

Origem provável:

Desconhecida *

China

China

Mortalidade global estimada:

20-40 milhões

1 milhão

1-4 milhões

* os primeiros casos foram identificados na Europa e nos Estados Unidos da América.

Estimação do Impacte da Próxima Pandemia

A estimação do impacte de eventuais pandemias que possam ocorrer alicerça-se sobretudo em extrapolações efectuadas a partir de pandemias já ocorridas. Contudo, deve-se referir que alguns aspectos dessas pandemias passadas são ainda duvidosos, como o número real de mortes que ocorreram. Outra consideração importante está relacionada com o facto da situação global actual ser muito diferente da situação que existia na primeira metade do século passado, havendo incontáveis melhorias como, por exemplo, o estado de nutrição das populações, os cuidados de saúde prestados e as possibilidades de intervenção. Assim, todas as estimações actuais relativas ao impacte de pandemias futuras podem ser muito diferentes do que vier de facto a ocorrer. O possível impacte da próxima pandemia é referido com mais detalhe no capítulo "impacte da pandemia de gripe".

Origem da Próxima Pandemia

O aparecimento de uma nova estirpe pandémica do vírus da gripe pode ocorrer em qualquer região ou país, incluindo a Europa ou Portugal. Porém, considerando a história recente das últimas pandemias, é provável que a próxima também tenha origem no continente asiático. Em muitos dos seus países, com elevada densidade populacional, é frequente a convivência entre homens e animais, nomeadamente porcos e aves, domésticas e selvagens, situação que facilita a co-infecção de estirpes humanas e animais pelo vírus da gripe, e a troca de material genético num animal misturador (homem e outros mamíferos), com o consequente aparecimento de uma nova estirpe pandémica.

Fernando Costa Silva © Portal de Saúde Pública, 2006

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