04 fevereiro 2008

«Não me movem projectos de âmbito pessoal ou sequer razões de vingança.»

Esteve ao lado de Paulo Caldas durante praticamente uma década mas recentemente promoveu a separação de caminhos, levando o presidente da Câmara a retirar-lhe a confiança política e a falar em traição. Pedro Ribeiro é candidato a líder da concelhia do Cartaxo do partido socialista e concorre contra o próprio Paulo Caldas às eleições de 15 de Fevereiro. Fala na necessidade de um partido mais aberto e recusa a ideia que a sua lista é motivada por sentimentos de traição.


Como analisa a disputa que tem sido travada entre Paulo Caldas e Pedro Ribeiro no contexto das eleições do próximo dia 15 de Fevereiro?
Penso que é uma disputa positiva. Existem dados que demonstram que há um partido antes e um partido depois da minha disponibilidade para disputar estas eleições. Fiquei surpreendido ao constatar que a análise que eu fazia da actividade do partido era partilhada por muitos dos elementos do secretariado que tiveram intervenção nessa reunião: o PS era um partido fechado, esses elementos sentiam que não estavam a ser ouvidos pela concelhia e que deveria haver uma maior separação entre aquilo que são os assuntos da Câmara e os assuntos do partido. Na reunião que referi, o dr. Paulo Caldas chegou a ponderar apresentar a demissão e eu avancei com a minha disponibilidade.
Referiu que há um partido antes e um depois de ter manifestado a sua intenção de se candidatar. Em que baseia essa posição?
Podia dar vários exemplos. Fizeram-se mais comissões políticas nos três meses seguintes que nos dois anos anteriores, o mesmo acontecendo com reuniões do secretariado. Até a bandeira foi substituída e a sede do partido, um assunto que estava morto, passou a estar em agenda como um assunto a tratar. O mesmo aconteceu com a entrada de novos militantes, que quase duplicou desde o anúncio da minha candidatura. Ou seja, foi o abanar de consciências dentro do partido.
Disse que se apercebeu que o PS era um partido fechado na concelhia do Cartaxo. Percebeu tal característica antes ou após o período em que esteve ausente por motivos de saúde?
Já vinha percebendo e os próprios elementos do secretariado queixavam-se da pouca dinâmica que estava a ser empreendida ao partido. Alguns militantes, inclusive, pressionaram o dr. Paulo Caldas, questionando-o até que ponto não era incompatível ser presidente da Câmara e presidente do partido em simultâneo.
Mas até o próprio primeiro-ministro tem uma posição semelhante, com o acréscimo de responsabilidade que advém da respectiva proporção no tocante à comparação entre ambos.
Eu também não vejo qualquer incompatibilidade e aliás, os estatutos não definem qualquer tipo de incompatibilidade no exercício das duas funções. Já houve em determinados períodos, inclusive, alguns presidentes de Câmara que acumularam as funções com a presidência da comissão política. Para mim, a questão centra-se mais na gestão do tempo. Falando no caso concreto do Cartaxo, o presidente da Câmara está mais ocupado com aquilo que é prioritário, que é ser presidente da Câmara, e não terá tanta disponibilidade para dedicar ao partido.
Esta disputa interna pode fraccionar ou até mesmo enfraquecer o partido?
Eu vejo a questão exactamente ao contrário. Se estivermos todos dentro do mesmo espírito de contribuir com os nossos projectos, o partido sairá mais forte. Eu recordo que o partido a nível nacional é um bom exemplo, com a disputa no congresso de Guimarães entre José Sócrates, João Soares e Manuel Alegre a conduzir a um cenário inédito, com naturais benefícios para o PS, que seis meses depois estava a ganhar a sua primeira maioria absoluta.
Muitos dos elementos que já manifestaram apoio à sua candidatura foram elementos afastados da Câmara pelo presidente Paulo Caldas. O próprio Pedro Ribeiro inclui-se nesse rol de elementos. É uma candidatura movida por um sentimento de ajuste de contas para com o presidente da autarquia e do partido?
A vantagem que eu tenho neste tipo de processo é que as pessoas do Cartaxo conhecem-me. Conhecem-me há muitos anos, pois sempre tive uma participação muito activa do ponto de vista associativo e nem tão pouco sonhava um dia vir a ter o convite do dr. Conde Rodrigues para integrar uma lista à Câmara. Também fundei a juventude socialista no Cartaxo. A grande maioria das pessoas que estão comigo fizeram parte da comissão de honra da candidatura do dr. Paulo Caldas à Câmara do Cartaxo, como é o caso do dr. Renato Campos. A prof. Ana Benavente foi escolhida pelo dr. Paulo Caldas para presidir à Assembleia Municipal, o prof. Augusto Parreira e a prof. Elvira Tristão foram convidados pelo dr. Paulo Caldas para integrar a lista à Câmara. São pessoas que têm uma vasta história no partido.
São factos que não afastam a possibilidade de haver uma motivação no contexto de um ajuste de contas.
Eu não estou na política para responder por projectos de âmbito pessoal e muito menos por motivações relacionadas com vinganças. Em todas as acções que temos promovido nunca ouvi ou li uma crítica ou uma referência pessoal ao dr. Paulo Caldas. Todas as reuniões decorreram em tom de grande elevação, discutiram-se ideias e projectos para dar resposta a uma ambição que é colectiva.
Elvira Tristão, por incapacidade política; Augusto Parreira por incompetência e Pedro Ribeiro por traição e falta de confiança. Estas foram as razões invocadas pelo presidente para justificar o afastamento dos elementos em causa, que agora disputam a liderança da concelhia contra o seu projecto. Não teme que os militantes vejam, por estas razões, uma motivação de ajuste de contas na vossa lista?
Esta candidatura pretende centrar o debate não em torno das pessoas, mas em torno das ideias e dos projectos. Por essa razão temos na nossa candidatura a intenção de lançar o fórum Novos Desafios, onde se apela não apenas à participação dos militantes mas também dos cidadãos, independentemente de serem ou virem a ser, ou não, filiados no partido. Pretendemos que a construção do Cartaxo do futuro dependa de todos e esse é um espaço de participação para centrar o debate nas ideias e nos projectos e nunca na pessoa A ou B.
O Pedro Ribeiro votou contra a revisão orgânica e do quadro de pessoal e também contra o plano de actividades para 2008. Partindo do pressuposto que ambos os documentos vêm numa linha de continuidade de uma política seguida há anos, na qual participou e foi também responsável e cúmplice, não teme que o seu voto contra seja incompreendido num contexto lógico?
O retorno que tenho tido dessa minha posição reflecte o agrado de militantes e cidadãos do concelho. Antes de tudo, devo dizer que me revejo na maior parte dos investimentos que estão previstos para o concelho, os quais, na sua definição, eu participei. Não posso é estar de acordo com duas medidas que na minha perspectiva rompem com tudo o que o partido socialista vinha a fazer e com o compromisso que tínhamos para com os eleitores do Cartaxo.
Quais são essas medidas?
A primeira razão na qual fundamentei o meu voto contra o orçamento tem a ver com a venda do campo da feira. Se eu viabilizasse o orçamento, estaria a viabilizar a venda do campo da feira. Penso que não há ninguém no Cartaxo que concordasse com esta medida. Comprometer a realização da feira sem um espaço alternativo não é medida que eu pudesse viabilizar. A segunda razão também tem a ver com a revisão orgânica: não tem lógica, e até contraria todo o movimento que foi feito ao nível da modernização administrativa pública, concessionar a privados os pesos pesados da despesa e da actividade municipal e simultaneamente estar a aumentar a despesa com pessoal em um milhão e cento e cinquenta mil euros anuais. Isto contraria a boa gestão e compromete o futuro do nosso concelho.
Foi por essa razão que também votou contra a revisão orgânica e quadro de pessoal?
Por uma questão lógica, evidentemente. Se se afasta da Câmara e se concessiona a privados as actividades de maior peso, que justificação há para aumentar os quadros de chefia e as despesas com pessoal em 1,150 milhões de euros anuais? Acaba-se com trabalho mas arranja-se mais pessoas para chefiar, que ainda é mais grave.
Nos anos anteriores, em que Pedro Ribeiro votou favoravelmente o orçamento, também houve aumento de custos com pessoal. Porque não tomou essa posição em anos anteriores?
Houve uma tendência de aumento, que teve a ver com a requalificação profissional e com a inflação, na ordem dos 400 mil euros anuais. O dado novo que há aqui é que este foi o ano em que concesionámos a privados. E a despesa com pessoal, em vez de descer, sobe para 1 milhão e 150 mil euros.
O vencedor das eleições de 15 de Fevereiro ficará com o poder de definir o candidato socialista à presidência da Câmara em 2009. Quem vai ser o seu candidato, caso vença o sufrágio?
Neste momento sou candidato à presidência da comissão política concelhia do PS do Cartaxo e por isso não gostava de confundir as questões, até porque penso ser prematuro abrir essa discussão. O projecto que temos para levar até 2009 é demasiado ambicioso para que neste momento se esteja a centrar a discussão em torno de pessoas.
Paulo Caldas é um bom recandidato e tem cabimento no seio da sua concelhia?
Não vejo qualquer tipo de razão para excluir alguém, incluindo o dr. Paulo Caldas. Mas essa não será uma decisão do presidente da comissão política; antes, será uma decisão colectiva da comissão política.
Em linhas gerais, quais são os pontos fortes do seu projecto de candidatura?
O principal ponto forte é a grande abertura à participação de independentes e militantes do PS do Cartaxo neste projecto. O partido socialista tem vindo a perder influência nos últimos anos, tem vivido demasiado fechado sobre si próprio e nós lançámos a ideia do fórum Novos Desafios onde queremos apelar a militantes e a cidadãos independentes que participem na construção do Cartxo do futuro. Queremos um partido moderno, que utilize as novas ferramentas, que tenha um espaço na internet como temos agora na campanha, de modo a chegar aos mais novos, que utilizam muito essas ferramentas. Pretendemos alargar a participação às mulheres, que são fundamentais na construção do nosso futuro. A formação política e autárquica é outro ponto forte: não podemos deixar ao abandono os eleitos do partido socialista nas Assembleias de Freguesia e na Assembleia Municipal.
Pergunta final: que opinião tem da pessoa e do político Paulo Caldas?
Eu não pretendo fazer apreciações de carácter sobre o dr. Paulo Caldas, sobretudo nesta altura e depois de tudo o que aconteceu nos últimos meses. Do ponto de vista meramente político, parece-me que devia elevar os níveis de exigência em relação às equipas políticas que o apoiam porque me parece que está muito mal acompanhado e por essa razão está no mau caminho.

Nuno Cláudio
in O Fundamental

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